quinta-feira, 4 de maio de 2017

Três dias escondendo Belchior em Porto Alegre




Postado em  Juremir Machado da Silva

Vida de jornalista é bizarra. Há três dias, na Rádio Guaíba, fui procurado por Edna, mulher do cantor Belchior. Ela me esperava sentadinha na recepção, com seu jeito simples e um ar melancólico. Nem acreditei. Edna é artista plástica, diz-se intuitiva, ama o marido e está preocupada com ele. Muito preocupada. Sentem-se perseguidos. Contou que eles têm recebido ameaças. Reclama que uma reportagem da Rede Globo, de 2009,  foi um ataque terrível ao cantor. Na matéria, Belchior foi dado como desaparecido, mas a emissora saberia bem não ser assim visto que ele fora entrevistado por Jô Soares poucos meses antes.

Qual seria o motivo da perseguição?

Aí é que se complica. Edna quer montar uma estratégia para proteger o marido antes de ele falar tudo o que supostamente sabe. O susto parece grande. Contou-me que haviam ficado até às três da manhã na Defensoria Pública. Disse que estavam hospedados num pequeno hotel do centro de Porto Alegre, por indicação de um juiz. Edna queria tirar o mais urgentemente possível Belchior do hotel e levá-lo para um lugar seguro e discreto. Pedia a minha ajuda. Queria que fôssemos num carro sem identificação de empresa jornalística. Comecei a duvidar. Será que ela era mulher de Belchior mesmo? Será que desejava me atrair para algum lugar e me sequestrar? Sou um velho jornalista alquebrado e cheio de dúvidas. Ela me parecia, no entanto, tão frágil, tão perdida, apavorada com as perseguições.

E confiava em mim.

Tinham lido minha coluna sobre Belchior. Resolvi fazer algo.

O repórter Jimmy Azevedo, da Rádio Guaíba, foi ao hotel ver se era mesmo Belchior. Era. Jimmy e o seu colega Gabriel Jacobsen passaram a acompanhar o cantor, que saiu com eles do Hotel Ponte de Pedra, na Fernando Machado, num carro da Defensoria Pública, protegido por outro, como num filme policial. Depois de mais quatro horas com defensores públicos, Belchior e Edna foram se abrigar na casa de Camila, amiga de Gabriel, numa rua tranquila do Bom Fim. À noite, Cláudia e eu fomos lá conhecer nosso ídolo. Encontramos um homem gentil, inteligente, calmo e culto, que nos falou bastante sobre sua paixão pelo escritor gaúcho Cyro Martins. Edna mostrou-nos vídeos com músicas do marido no YouTube. Entrevista? Não. O plano é relançar a carreira de Belchior neste ano, em grande estilo, com mídia nacional. Sem nem sequer um celular nos bolsos, Belchior e Edna garantem não estar falidos e esperam um retorno triunfante. Ficamos perplexos. O que estará realmente acontecendo com um artista tão talentoso e admirado?

Belchior tornou-se um mistério. Diz não estar fugindo nem se escondendo. Teria se retirado para compor. Mais de vinte novas canções prontas provarão isso, indica. As aparências, cantou ele, um dia, não enganam mais. Algo desandou na sua vida? O quê? Por quê? Eles querem ser recebidos por alguém da direção da TV Record. Não querem ir ao prédio histórico do Correio do Povo por ser no centro da cidade. Encontrar alguém da televisão é para eles uma meta irrevogável. Só da tevê. Faço o contato. À tarde, eles vão ao morro Santa Teresa e são recebidos por Vânia Lain, gerente de jornalismo da Record-RS. Não abrem o jogo. Qual é o jogo? Denúncias com provas e um relançamento em grande estilo da carreira de Belchior. Voltamos a nos encontrar. Chegamos a caminhar juntos no Bom Fim quase ao anoitecer. Na hora do entrar no edifício, Edna e Belchior recuam, desviam, refugam, receiam alguma coisa. Ela fica muito nervosa. Sentem-se vigiados. Jimmy, Gabriel e eu atravessamos a rua. Edna e Belchior não o fazem. De onde estão, fazem sinal para que a porta seja aberta. Só depois que Gabriel gira a chave e empurra a porta é que eles atravessam quase correndo e entram no prédio.

Temem que o local seja identificado.

Temos uma conversa difícil. Avisamos que, mesmo sem entrevista oficial, vamos noticiar a estada deles em Porto Alegre. Edna fica indignada. Alega que estou eticamente comprometido com eles. Argumentamos. Ela adota um discurso estranho, em tom de ameaça ou de pressão.

– Se vocês vão dar matéria, nós temos de ligar agora mesmo para Brasília. Temos muitos amigos importantes lá. Tomaremos nossas providências depois de ler o que for publicado.

Tentamos saber o que os assusta tanto. Não conseguimos. Já tínhamos pedido para ver as provas sobre as tais denúncias de que falam. Nada feito. Faz calor.

Belchior tenta falar. A voz de Edna encobre a dele quase sempre.

– Meus Deus, não consigo falar – ele diz.

Interfiro pedindo a ela que o deixe falar.

– Vê lá o que você vai falar, hein! – ela diz.

– Vocês não precisam de mim para nada. Não precisam da minha autorização para publicar, mas eu preferiria que fosse diferente. Quero falar quando for de um trabalho, dentro de algum maior, não apenas mais uma entrevista.

Gabriel argumenta que somos apenas jornalistas e queremos noticiar a presença deles em Porto Alegre. Belchior pergunta o que sairá, como sairá, algo assim, num esforço para demonstrar que o melhor é esperar.

– Vai ser assim: Belchior está em Porto Alegre e diz ter graves denúncias a fazer – tento resumir.

– Não! É isso que não pode sair – exalta-se Edna.

Belchior faz coro.

– Não. Seria terrível.

Jimmy tenta acalmá-los.

Aviso que tenho de voltar para casa. Belchior diz:

– Vocês não precisam de mim para fazer o mal.

– Mas precisam para fazer o bem – emenda Edna.

Pergunto a Gabriel quanto tempo Camila ainda poderá dar-lhes guarida no seu apartamento.

A irmã, que mora com ela, foi dormir noutro lugar para ceder-lhes o quarto onde se retrancam em busca de segurança.

– Mais uma noite – diz Gabriel.

Saio para a rua. Penso em Belchior. Sou fã dele. As suas composições tocam o meu coração. Minutos antes, eu lhe dizia da minha paixão por seu trabalho e de outros cantores da minha predileção, aqueles que sempre ouço.

– Tu e Charles Trenet – digo.

– “La mèr” – ele responde, com os olhos brilhando.

– “Douce France”, “Ménilmontant” – acrescento.

Ele sorri. Eu deveria ter completado:

– “Paralelas”, “Mucuripe”, “Como nossos pais”…

A voz de Belchior parece intacta. Se cantar, vai tirar o pé da lama. Sugiro show na Arena. Ou, como ele já morou no Bom Fim, uma apresentação no Araújo Vianna. Espero publicar aqui, em seguida, os relatos de Jimmy Azevedo e Gabriel Jacobsen, que mergulharam nesta estranha aventura com Belchior com a entrega dos verdadeiros repórteres, aqueles que amam as histórias humanas com seus dramas, zonas de sombra e complexidades.

A foto que ilustra este texto tem apenas a função de legitimar o relato.

Termino com uma reflexão triste:

– Tudo que eu queria era ajudar Belchior. Eu ficaria feliz em vê-lo brilhar novamente. Confesso minha impotência. Não consegui compreender o que se passa com ele. Sei que Edna e ele vão me odiar por eu ter publicado este texto. Sinto-me como aquele jornalista do filme “A montanha dos sete abutres”, clássico do sensacionalismo sem limites. Ao mesmo tempo, algo me diz que devo publicar, que é jornalismo, que tenho uma obrigação de informar. Sentirei culpa por isso. Mas esta é a minha única possibilidade de tentar ainda ajudá-lo, chamando a atenção para a estranha situação em que se encontra.

Cantarolo mentalmente contemplando os telhados do Bom Fim:

Você me pergunta
Pela minha paixão
Digo que estou encantada
Como uma nova invenção
Eu vou ficar nesta cidade
Não vou voltar pro sertão
Pois vejo vir vindo no vento
Cheiro de nova estação
Eu sei de tudo na ferida viva
Do meu coração…

Já faz tempo
Eu vi você na rua
Cabelo ao vento
Gente jovem reunida
Na parede da memória
Essa lembrança
É o quadro que dói mais…

Minha dor é perceber
Que apesar de termos
Feito tudo o que fizemos
Ainda somos os mesmos
E vivemos
Ainda somos os mesmos
E vivemos
Como os nossos pais…

Nossos ídolos
Ainda são os mesmos
E as aparências
Não enganam não
Você diz que depois deles
Não apareceu mais ninguém
Você pode até dizer
Que eu tô por fora
Ou então
Que eu tô inventando…

Mas é você
Que ama o passado
E que não vê
É você
Que ama o passado
E que não vê
Que o novo sempre vem…

Hoje eu sei
Que quem me deu a idéia
De uma nova consciência
E juventude
Tá em casa
Guardado por Deus
Contando vil metal…

Minha dor é perceber
Que apesar de termos
Feito tudo, tudo,
Tudo o que fizemos
Nós ainda somos
Os mesmos e vivemos
Ainda somos
Os mesmos e vivemos
Ainda somos
Os mesmos e vivemos
Como os nossos pais…

Foto: Ana Cláudia da Silva Rodrigues

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