sábado, 13 de junho de 2015

Se a alma não é pequena




Nem sempre as pessoas fazem o que querem; nem sempre querem o que fazem.

A criança gostaria de ficar brincando. Os pais impõem-lhe a escola, em seu próprio benefício. O doente não tem nenhuma disposição para internar-se no hospital. Inadiável, porém, a cirurgia para debelar o mal que se agrava. O operário preferiria o clube. Impossível. A família depende de sua atividade profissional.

Algo semelhante ocorre na experiência reencarnatória, indispensável recurso evolutivo no estágio em que nos encontramos. Retornaremos à carne vezes sem conta, até que nos tornemos aspirantes à angelitude.

Espíritos imaturos estimariam permanecer numa boa, evitando as limitações da matéria, as complicações do esquecimento, os problemas de reconciliação com desafetos, o suor do rosto, as dores do mundo, as angústias existenciais. Mesmo os mais esclarecidos encaram com relutância o retorno, embora conscientes de que reencarnar é preciso.

Não raro o espírito sente-se tão inseguro ou tão contrariado, reluta tanto que chega a rejeitar a experiência que se inicia. Dispara ele próprio problemas fetais que podem resultar no aborto.

Esta fuga acontece particularmente no início da gestação, quando tênues são os laços que o prendem ao corpo.

A gestante nem chegará a perceber, julgando-se às voltas com mero atraso no ciclo menstrual. Há casos em que se consuma a reencarnação, mas o espírito recusa-se à nova existência, originando um comportamento autista, como se buscasse esconder-se dentro de si mesmo.

Fácil concluir que reencarnar não é simples ligar de uma tomada. Há vários fatores que precisam ser harmonizados. Imperioso, sobretudo, trabalhar os pais para que se disponham ao encargo, evitando grave problema: a rejeição.

A jovem senhora vai buscar o resultado do teste de gravidez.

No papel que lhe é entregue destaca-se o desenho de uma cegonha carregando sorridente bebê, simpática maneira escolhida pelo laboratório para transmitir-lhe a notícia de que o resultado é positivo. Será novamente mãe.

− Meu Deus! Outro filho! Vai complicar!

A reação do marido é pior: − Culpa sua! Bem avisei que não deveria interromper o uso das pílulas!

− E continuar engordando como suíno confinado! Por que não fez você a vasectomia, como recomendou o médico?!

Acirra-se a discussão. O ambiente esquenta. Agridem-se verbalmente os cônjuges, trocando acusações e asperezas...

Pobre reencarnante! Como se sentirá? Um enjeitado, sem dúvida. Será difícil evitar a sedimentação da ideia de que o consideram um intruso, alguém que veio para atrapalhar, sem pedir licença.

E quanto a nós, qual teria sido a nossa motivação para o retorno à carne? Não é difícil definir. Basta analisar como encaramos a existência. Gastamos tempo a reclamar do cotidiano? Damos guarida a mágoas e irritações? Resvalamos para estados depressivos e angustiantes? Desentendemo-nos frequentemente com pessoas de nossa convivência? Sucedem-se, ininterruptos, desajustes físicos e psíquicos que nos incomodam?

Se a resposta é afirmativa, estamos numa compulsória. Reencarnamos meio na marra, como diz o povo.

Mas podemos mudar isso, considerando que é irrelevante como viemos. Importante é saber o que nos compete fazer na experiência humana. Neste particular o espiritismo tem muito a nos oferecer, ensinando-nos, sobretudo, que nossa vida será exatamente o que dela fizermos. Por opção diária, não seja a Terra para nós uma jaula, uma prisão, um hospital, um reformatório.

Vejamo-la sempre como abençoada escola/oficina, onde nos compete valorizar todas as experiências em favor de nossa edificação. Ensina Fernando Pessoa, o poeta: “Tudo vale a pena, se a alma não é pequena”. Dores e lutas, trabalhos e esforços a que somos chamados na Terra, desde o simples varrer de uma casa às funções mais complexas, tudo vale a pena, se desenvolvermos em nossa alma a grandeza necessária para enxergar a oportunidade de fazer sempre o melhor.

Richard Simonetti

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